Sabesp privatizada faz uma restrição deliberada da água e isso vai na contramão do direito humano

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O especialista em recursos hídricos Amauri Pollachi, conselheiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) e ex-servidor da Sabesp por 30 anos, reiterou as críticas à privatização da companhia e à forma como a empresa vem operando os sistemas de abastecimento em meio ao agravamento da escassez de água em São Paulo.

Responsável por áreas estratégicas da empresa pública e com atuação direta durante a crise hídrica de 2014–2015, Amauri explicou, em entrevista à Hora do Povo, que a lógica de maximização do lucro tem levado à superexploração dos mananciais, à ausência de planejamento de longo prazo e à imposição de um racionamento não declarado, que atinge de forma desigual a população, sobretudo nas periferias. 

Leia a seguir a entrevista:

HP – A Sabesp adotou, desde o fim de 2025, a chamada redução da pressão no sistema que tem impactado a população da capital paulista. Eu moro na Vila Carrão, que não é considerada “extremo leste”, está ao lado do Tatuapé e Jardim Anália Franco, bairros de classe média, mas a partir das 19h já não se tem água. A situação é mais séria do que a Sabesp e o governo de São Paulo apresentam? 

Amauri Pollachi: Acho que a sua experiência vale. A falta de água atinge grande parte da zona Leste e também outras regiões. Já em áreas de maior poder aquisitivo, como Faria Lima, Pinheiros e Jardim América, o fornecimento não é interrompido. Certamente, nas áreas de maior poder aquisitivo não “interessa” faltar água.  Além disso, prédios verticalizados contam com reservatórios e geradores, o que reduz o impacto. Nas periferias, a falta de água é cotidiana. 

Mesmo em bairros de classe média, o fornecimento cai à noite. Isso mostra que o problema é mais amplo e desigual do que se divulga. Eu moro em Santo Amaro (zona Sul), minha residência fica, digamos, assim, numa certa inclinação, numa parte mais baixa. Já entre 19h, 20h, não se tem água. Imagine quem mora em um local mais verticalizado: é zero água!

Eles dizem que a pressão vai ficar em apenas um metro de MCA – sigla para metro de coluna d’água, uma unidade de medida utilizada em sistemas hidráulicos, que corresponde à pressão exercida por uma coluna de água de um metro de altura. É mentira, é fechamento! O que está acontecendo não é uma gestão da demanda noturna, mas uma restrição deliberada da oferta. Isso vai justamente na contramão do direito humano de acesso à água. Por quê? Porque a empresa prestadora do serviço está – deliberadamente – desabastecendo o sistema.

Num cenário de agravamento desse quadro de crise, faltará água para o conjunto da população, incluindo a que vive em áreas privilegiadas? A empresa seguirá lucrando se isso ocorrer?

Então vamos deixar claro. Não sei se você já viu a propaganda que a Sabesp tem feito (na mídia). Essa propaganda deixa muito claro do que se trata. Ela afirma que a escassez de água é um problema histórico e estrutural. Isso não é verdade. 

Por que não é verdade?

A escassez de água não é um problema histórico. Ela decorre da crise climática. Não se fala mais apenas em mudança climática, mas em crise ou emergência climática. Portanto, a escassez não é histórica. Também não é estrutural. Ela decorre de uma má operação, que é o que a empresa vem fazendo hoje. Na crise de 2014–2015, a Sabesp não estava adequadamente preparada em termos de planejamento, mas havia algo muito importante: existia um plano de abastecimento para a macrometrópole paulista. Não era apenas para a Região Metropolitana de São Paulo. Abrangia a Baixada Santista, o Vale do Paraíba, a região de Campinas, Piracicaba e Sorocaba. Todas essas bacias foram objeto de um grande estudo, concluído meses antes do início da crise hídrica de 2014. Esse estudo apontava obras e intervenções necessárias para garantir a segurança hídrica no futuro, inclusive para atender à expansão da demanda. O que aconteceu em 2014–2015 foi que a Sabesp adiantou obras que estavam previstas para dez ou vinte anos depois.

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